Ah, aquela ponte…

27/12/2008

Por Lucas

Eu sempre quis resolver todos os problemas do mundo. Observava tudo ao meu redor, era impossível não ver que havia muita coisa errada, mas eu ficava a me perguntar “por onde devo começar?”. Eu nunca soube, e morri sem saber.

Inicialmente eu pensei em ajudar algumas crianças carentes que, muito facilmente, encontrava na rua. Algumas trabalhando em semáforos, outras cheirando cola. Mas depois pensei comigo mesmo “eu ajudo elas… e depois? Isso não irá resolver o problema das outras”. É… eu desisti depois disso.

Passados alguns anos pensei em tirar os idosos da rua. Não era justo que eles vivessem toda uma vida e, no final, vivessem ali, sem uma cama, como eu. Em meus planos surgiu outro problema, como eu iria arrecadar fundos para criar um asilo? Eu não tinha dinheiro, vivia as custas de um trabalho mediano, nada que fosse suficiente para iniciar uma construção. Também desisti de ajudar os idosos.

Mais alguns anos se passaram, comecei a pensar em mim, deixar os problemas dos outros de lado. Em minha vida não havia muitos problemas. Até que encontrei o amor da minha vida, e aquele seria o ultimo amor. Eu tentei de todas as formas conquistar ela. Dei presentes belos, fiz os mais belos poemas que se pode fazer, mas eu não consegui.

Sabe o que era pior nisso tudo? Ela me dava esperanças, fazia com que eu acreditasse que ela iria me dar uma chance. Fui enganado até o dia em que eu a vi com outra pessoa, um outro homem. Depois disso vivi dias terríveis, eu não conseguia mais pensar direito, comecei a ter alguns pensamentos suicidas. Não foram só pensamentos, foi uma ação também.

Eu pensei em tudo, como seria, onde seria e se eu iria ou não deixar explicações. Decidi que fosse pulando de um lugar alto, assim eu comprovaria se a vida das  pessoas passa mesmo diante dos olhos, quando ela está diante da morte. Uma ponte seria perfeito. Eu não contaria a ninguém, quem iria entender esse motivo? Só quem já passou pelo mesmo para entender o que eu fiz.

Era um dia que, possivelmente, seria ensolarado. O mundo acabaria naquele momento, pelo menos o meu. Me joguei sem pensar duas vezes. E na minha cabeça não passou filme nenhum. Morri. Mais uma vez desisti de alguma coisa. Desisti da minha vida. Não é de se espantar, sempre foi assim minha vida toda.


O Indesejável

22/12/2008

Por Marcos

Era uma coisa bem informal. Só íamos tomar alguma coisa em um bar no fim da rua, jogar conversa fora; essas coisas que amigos fazem. Primeiramente ia apenas eu, Rogério e Sofia. Na época éramos inseparáveis. Nunca brigávamos. Alguém falava uma coisa desagradável e nenhum dos outros dois se incomodava. Eu gostava de Sofia naquele tempo, mas ela se fazia que não sabia. E fingia mal de propósito. Alguns minutos antes de eu sair de casa o telefone toca.

– Alô, Marcos?

– Oi, Rogério – reconheci a voz.

– Sabe, acabei de receber um telefonema do Bernardo. Ele tava perguntando a que horas era pra estar no bar.

– Como? Quem disse pra ele que íamos ao bar?

– Eu ia fazer a mesma pergunta. Deve ter sido a “bocona” da Sofia.

– Deve sim.

– Pois bem, o Bernardo pediu para que nós dois passássemos na casa dele.

– Tudo bem, estou indo daqui pouco. A gente se encontra lá.

– Até mais.

Desliguei o telefone. Arrumei-me bem rápido. Não tinha ficado satisfeito com a idéia de sair com o Bernardo, mas dizer isso a ele era outra coisa. Fui andando rápido pra casa do “indesejado”, não queria perder tempo naquele dia.

Dobro a esquina e vejo Rogério parado em frente à casa do Bernardo.

– Espero que hoje eu não volte de mau-humor pra casa – disse Rogério.

– Também – eu disse -. Me lembrei, no caminho pra cá, que o Bernardo está com um CD meu.

– Ele tem fama de pedir emprestado e não devolver mais.

– É to sabendo. E faz dois meses que emprestei. To ficando preocupado.

– Sabe que semana passada – já sei bem aonde essa lembrança vai chegar -, eu estava lendo uma revista e o Bernardo me pediu pra dá uma lida. Emprestei. Depois de poucos segundos ele consegue rasgar a revista.

– Idiota e burro.

– Me deixa terminar e você diz o que acha. Ele estava lá com a revista em uma mão e na outra meia página da revista. Ai eu digo: “porra, olha o que você fez!”. E ele responde: “besteira, Rogério, eu te compro outra”. E aí?

– Idiota e burro. Ele falou isso como se não tivesse feito nada demais?

– Foi.

Nem parecia que estávamos na frente da casa do Bernardo. Falávamos alto, sem temer que alguém conhecido escutasse.

– Outro dia desses, eu estava conversando com ele, e do nada ele me deu um murro no peito – eu disse.

– Ele já fez isso comigo também. E ainda ficou com raiva quando eu perguntei por que ele tinha feito isso comigo.

– Ficou do mesmo jeito comigo, mas por que eu bati nele. A Sofia também me contou que ele tava chamando-a de puta, rapariga, essas coisas.

– Não soube dessa – eu percebo que Rogério está ficando com raiva pelo tom de sua voz.

– Pois ele falou. E olhe que ele nem estava bêbado.

Fico parado olhando para aquela casa e começo a pensar no que acabamos de dizer um para outro. Eu realmente não gostava do jeito de Bernardo. Ele chegava a ser mesquinho. Estava com vontade de dá uns bons murros na cara dele. Falar mal de Sofia eu não admitia. Era insuportável.

– Por que nós vamos sair com ele? – disse Rogério.

– Não sei mesmo – respondi.

– Vamos embora?

– Vamos agora!

Saímos apenas os três, como tínhamos combinado. Fomos a outro bar, um fora do bairro. Sofia lembrou como Bernardo gostava de fazer piadas quando estava bêbado. Só falamos isso sobre Bernardo durante toda a noite. Não falamos mais com Bernardo depois daquele dia. Acabei perdendo meu CD. “Prefiro ficar sem aquele CD, a conviver com um inimigo”, disse para Sofia dias depois.


Visitas, traição e dor

17/12/2008

Por Sapo

Entro na academia e sinto aquele cheiro de suor, cheiro de homem para se dizer a verdade. Faz meses que eu treino ali, mas aquele odor sempre me incomoda. Prefiro o doce perfume de Bárbara.

Bárbara é bastante misteriosa, não gosta de falar muito. Principalmente sobre ela, não sei quase nada sobre a vida dela. Faz duas semanas que eu saio com Bárbara, ou melhor, que eu vou a casa dela. E conversar é a única coisa que não fazemos. Não sei desde quando ela se interessou por mim, mas isso pouco me importa: sempre tive uma “queda” por Bárbara.

– Ah! Dor! Como é bom sentir dor nos músculos! – grita alguém no fundo da academia, me fazendo esquecer Bárbara.

“Isso é coisa que se diga quando se está rodeado de homens?” Não era primeira vez que escutava aquilo, embora da primeira vez tenha sido mais um sussurro do que um grito. E da outra vez não tinha músculos no meio.

– Eu quero sentir dor!

“Que babaca! O que ele pretende com isso? Instigar os outros homens da academia?”

– Me faça sentir dor!

Dirijo-me ao banheiro e passo em frente ao masoquista. Olho para o rosto dele, e ela é familiar. Mas tem alguma coisa estranha, acho que não o vi pessoalmente. Devo tê-lo visto em uma foto. “Mas aonde?” Começo a ficar preocupado, sinto que devo ficar preocupado. É como um instinto de sobrevivência.

– Ah! Dor! Só eu mesmo pra agüentar duas horas de dor! Chega por hoje!

“Será que alguém quer saber se ele gosta de dor? Porque ele simplesmente não treina calado?”

Saio do banheiro no mesmo momento que o “grandalhão dolorido” se levanta. Passo a menos de um metro dele. Foi como se eu o tivesse ameaçado. Ele faz uma expressão de raiva.

– O que é que ta olhando, mocinha? É algum veado que gosta de músculos?

Não sou covarde, mas têm horas que o melhor a fazer é ficar calado. Qualquer ser com a mínima inteligência faria isso. Finjo que não foi comigo e me dirijo ao Roberto, o porteiro. Ainda sinto o olhar do grandalhão na minha nuca.

– Quem é a figura? – pergunto ao Roberto.

– É o namorado da Bárbara.

Aquela resposta foi como um murro na minha barriga. Lembrei onde tinha visto a foto: no criado-mudo ao lado da cama da Bárbara. Minha cabeça tava girando. “A Bárbara tem namorado?” penso, “ela namora esse troglodita?”. Provavelmente ele não sabe de nada, meu pescoço ainda ta inteiro.

– A Bárbara, minha vizinha? – pergunto afinal.

– É, ela. Sabe o que dizem por aí?

– Não, o que dizem? – pergunto temendo a resposta.

– Dizem que você anda visitando ela.

– É. To fazendo umas visitinhas.

Saio dali o mais rápido possível. Antes que o brutamonte me faça sentir dor. Se ele gosta de sentir, imagino que causar seja com ele mesmo. Seria ruim se ele fizesse algo comigo. Pior que isso vai ser parar de fazer visitas a Bárbara.