Visitas, traição e dor

Por Sapo

Entro na academia e sinto aquele cheiro de suor, cheiro de homem para se dizer a verdade. Faz meses que eu treino ali, mas aquele odor sempre me incomoda. Prefiro o doce perfume de Bárbara.

Bárbara é bastante misteriosa, não gosta de falar muito. Principalmente sobre ela, não sei quase nada sobre a vida dela. Faz duas semanas que eu saio com Bárbara, ou melhor, que eu vou a casa dela. E conversar é a única coisa que não fazemos. Não sei desde quando ela se interessou por mim, mas isso pouco me importa: sempre tive uma “queda” por Bárbara.

– Ah! Dor! Como é bom sentir dor nos músculos! – grita alguém no fundo da academia, me fazendo esquecer Bárbara.

“Isso é coisa que se diga quando se está rodeado de homens?” Não era primeira vez que escutava aquilo, embora da primeira vez tenha sido mais um sussurro do que um grito. E da outra vez não tinha músculos no meio.

– Eu quero sentir dor!

“Que babaca! O que ele pretende com isso? Instigar os outros homens da academia?”

– Me faça sentir dor!

Dirijo-me ao banheiro e passo em frente ao masoquista. Olho para o rosto dele, e ela é familiar. Mas tem alguma coisa estranha, acho que não o vi pessoalmente. Devo tê-lo visto em uma foto. “Mas aonde?” Começo a ficar preocupado, sinto que devo ficar preocupado. É como um instinto de sobrevivência.

– Ah! Dor! Só eu mesmo pra agüentar duas horas de dor! Chega por hoje!

“Será que alguém quer saber se ele gosta de dor? Porque ele simplesmente não treina calado?”

Saio do banheiro no mesmo momento que o “grandalhão dolorido” se levanta. Passo a menos de um metro dele. Foi como se eu o tivesse ameaçado. Ele faz uma expressão de raiva.

– O que é que ta olhando, mocinha? É algum veado que gosta de músculos?

Não sou covarde, mas têm horas que o melhor a fazer é ficar calado. Qualquer ser com a mínima inteligência faria isso. Finjo que não foi comigo e me dirijo ao Roberto, o porteiro. Ainda sinto o olhar do grandalhão na minha nuca.

– Quem é a figura? – pergunto ao Roberto.

– É o namorado da Bárbara.

Aquela resposta foi como um murro na minha barriga. Lembrei onde tinha visto a foto: no criado-mudo ao lado da cama da Bárbara. Minha cabeça tava girando. “A Bárbara tem namorado?” penso, “ela namora esse troglodita?”. Provavelmente ele não sabe de nada, meu pescoço ainda ta inteiro.

– A Bárbara, minha vizinha? – pergunto afinal.

– É, ela. Sabe o que dizem por aí?

– Não, o que dizem? – pergunto temendo a resposta.

– Dizem que você anda visitando ela.

– É. To fazendo umas visitinhas.

Saio dali o mais rápido possível. Antes que o brutamonte me faça sentir dor. Se ele gosta de sentir, imagino que causar seja com ele mesmo. Seria ruim se ele fizesse algo comigo. Pior que isso vai ser parar de fazer visitas a Bárbara.

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4 Responses to Visitas, traição e dor

  1. o gato preto disse:

    é sempre bom ter esses “detalhes” numa parada pra dar aquele clima de “perigo”. eu só lamento o sidney vicious não ter a menor chance se for sair na mão comigo. na mão, não! porque a mão a gente só usa num duelo de boxe, em que se deve seguir regras… mas, numa briga de rua, nada como um taco de baseball… mas, enfim, onde eu estava? é isso, cara, excelente texto!

  2. Dan Cesare disse:

    detalhes

    :::::::::::)))))))))))

  3. Balinha disse:

    A-do-rei.

    Lendo até eu me senti na pele, querendo sair dali o mais rápido possível.
    Parece um relato real, tá ótimo.

  4. Oitentando disse:

    Na próxima fiquem espertos….
    se não os dois irão sentir dores e pelo tamanho do bruta-montes,não será pouca coisa…Sejam mais discretos e paguem um motel né…kkkkkkkk

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