Beije-me

30/01/2009

Por Marcos

– Acho que você vai morrer pelo fígado…

– E você vai morrer por causa da boca.

– O que você está insinuando?

– Que você é um saco!

– Sabe por que eu te chamei aqui?

– Pelo mesmo motivo que eu to te aturando.

– Como você reclama!

– Como você é chata!

– Por que você não me trata bem? Não me faz uma poesia?

– Poesia não é pro seu bico.

– Nem flores me trouxe, seu sacana.

– Que diferença vai fazer?

– Custa me agradar?

– Custa calar a boca?

– Seu filho da puta!

– Por que você não usa sua boca pra fazer outra coisa?

Faz-se um silêncio quase absoluto. Quebrado apenas pelo barulho dos beijos.

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A Corda

09/01/2009

Por Felipe

O primeiro tempo do jogo acaba. Corro pra cozinha. Pego mais duas cervejas. Volto pra sala e me jogo no sofá.

– Danilo! – alguém me chama, do lado de fora da minha casa.

Levanto-me. Já tenho idéia de quem seja.

– Sou eu, o Rafael.

Era exatamente quem eu suspeitava. Lembro-me que Rafael está me devendo um dinheiro, mas não sei quanto. Tinha emprestado mais de duzentos reais, só lembro disso. Fazia um bom tempo.

– Oi, Rafael. Entre.

Quando ele chega mais perto, noto que o seu pescoço está todo marcado. São marcas de corda, como se alguém (ou ele mesmo) tivesse tentado o enforcar. Foi a primeira vez que vi tal coisa.

– O que te aconteceu? – pergunto.

– O que? Ah, sim. As marcas.

– Isso mesmo. Não é o que estou pensando, certo?

– E eu sei lá o que você está pensando Danilo! Olha só, vim aqui devolver aquele dinheiro. Pegue.

Ele me entrega algumas notas de cinqüenta. Ponho na carteira sem contá-las.

– E então, vai me contar o que houve com o seu pescoço?

– Tudo bem, mas não comente nada com ninguém, certo?

– Certo.

– A Andréa tentou me enforcar.

Penso se não é uma brincadeira dele. Mas fazer aquilo consigo mesmo não é do feitio de Rafael. Andréa é uma mulher muito grande. Deve pesar uns cem quilos. E Rafael é um homem pequeno. Ela podia ter feito isso com facilidade.

– Nossa! Por que ela fez isso contigo?

– Cheguei bêbado em casa anteontem. Sabe como é, eu fico um pouco irritado quando “tomo umas”, meu patrão tinha gritado comigo. Disse-a que ela andava muito folgada pro “meu gosto”. Chamei-a de umas coisas. E quando eu vi, ela meu deu um soco no rosto. Cai no chão e ameacei-a de morte. Levantei-me e dei uma tapa no rosto dela.

– Nossa. E ela?

– Ficou toda vermelha. Foi na cozinha. Continuei praguejando. Ela voltou com uma corda e começou a me enforcar. Me pegou desprevenido. Tentei me soltar, mas não dava: a mulher é muito forte!

– E então ela te soltou? Certo?

– Quem dera ela fosse mais fácil. Tive que pedir perdão, disse que a amava. Que não sabia o que tava fazendo. Só não chorei.

– Nossa. Que noite, hein?

– É. Tenho que ir. Não quero mais que ela me bata. Até outro dia, Danilo.

– Até Rafael.

Ele vai embora. Sai apressado, nervoso. “Mas que homem mole” penso, “no dia em que minha mulher fizer isso comigo, ponho ela pra fora de casa. Tinha que ser com o Rafael. Sempre o “franguinho” de sempre. Aposto que chorou ontem. Nenhuma mulher bateu em mim! As que tentaram se arrependeram. Dei-lhes uma tapa de um lado do rosto, e outra no lado oposto para a cabeça não ficar torta! Se um dia Júlia me desobedecer , eu dou-lhe uns bons tapas!”

Quando a partida recomeça, Júlia, minha esposa, chega em casa. Carrega uma sacola plástica. Ela vai direto para a cozinha. “Provavelmente vai fazer a janta” penso, “tenho que ir dizer o que quero”. Noto que minhas cervejas acabaram.

– Júlia, me traga mais uma cerveja – falo com autoridade –. O que você comprou?

– Uma corda – ela responde.