Crônica noturna

06/02/2009

Por Marcos

O Nóia queria que a turma ficasse unida. Ficava dizendo a cada dez minutos: “ninguém se separa”. Eu só estava interessado em sair de perto deles. Todos estavam bêbados e eu não tinha interesse em cuidar de bêbado algum, além de mim.

Consegui fugir com o pretexto de que ia ao banheiro. Ao invés disso, fui direto a uma barraca que vendia bebidas. Uma batida me chamou a atenção: Capetão. Vodca, vinho, cachaça, rum, pó de guaraná e açúcar. Tudo misturado. Pedi um.

Foi quando me arrependi de ter abandonado o “trem da alegria”, não tinha mais cigarros. Olhei para os lados atrás de algum fumante. Tinha uma senhora ao meu lado, com seus 50 anos ou mais. Pedi com educação:

– Tem um cigarro pra mim?

– Se for pra matar eu tenho!

– É um desse mesmo. Obrigado.

“Agora sim”, penso, “capeta e morte”.

Vou andando sem direção. Atrás de alguma baixaria, talvez. Uma briga de casal seria interessante. Vejo apenas prostitutas. E um “flanelinha”, que parece estar querendo falar alguma coisa pra mim. Dirigi-me a ele.

– Ta afim de um “braite” – ele falou, olhando para outro lado.

– Pode ser – respondo olhando para outro.

Quanto é?

– Vinte paus a grama.

– Muito caro. Tem outra coisa mais barata não?

– Garrafada do norte.

– Essa serve.

– Chega mais pra cá.

Ele foi pra baixo de uma arvore. É um lugar escuro, dá pra disfarçar uma venda ilegal.

– São cinco contos.

– Pega. Agora me passa.

O bom do Dragão do Mar é que ninguém se importa com o que você faz. Escuto só alguém dizer que aquilo é o pau do cão. Faço dois cigarros mesmo assim.

O Nóia reapareceu. Mandei tudo pra cuca.

– Hei cara, podes me levar pra casa? – eu perguntei.

– Ta mal hein?

– A noite foi infernal. Me ajuda aqui.

É bom ter amigos nessas horas.


Apenas uma formiga.

27/01/2009

Por Lucas

Em minha perna, vejo uma pequena formiga tentando subir. É clara a dificudade que ela tem em praticar esse ato.

A dificudade é bem maior quando se é pequenininho. Não apenas para essa formiga, ou um inseto. Para todos, para aqueles que desistem de seus sonhos. Que aceitam a vida que levam, mesmo sendo quase impossível viver ela. Para todos os outros que desistem de algum objetivo por acreditarem que não irão  alcançar nunca. Para quem, antes mesmo do fim da guerra, entrega a batalha e se mata.

Ah, mas era apenas uma formiga. Com o homem  é diferente, ele pensa, ele raciocina. Ele não iria fazer algo sem objetivo, assim como era a subida da formiga.

As formigas são inúteis. Não pensam e, nem mesmo, teriam um motivo para está subindo na minha perna. Elas não são significantes.Elas não desenvolvem novas vacinas, não criam naves espaciais, não exploram o espaço, não criam armas, não fazem guerras, não arriscam a vida do Planeta. São simples formigas.

Mas será que que a evolução é, sempre, boa? O homem evoluiu, não foi mesmo? As formigas bem mais espertas, não destroem, arriscam suas vidas com objetivos bem mais plausíveis.

São apenas formigas, eu matei ela (não tenho certeza disso). Não tem valor, tem? Não pensei duas vezes em acertar a mão nela e derrubar a mesma de minha perna. Quem pensa duas vezes antes de matar uma formiga? Não vão ao céu, muito menos ao inferno. O homem pensa, raciocina. Encontrou o céu e o inferno. Já as formigas, não.


Visitas, traição e dor

17/12/2008

Por Sapo

Entro na academia e sinto aquele cheiro de suor, cheiro de homem para se dizer a verdade. Faz meses que eu treino ali, mas aquele odor sempre me incomoda. Prefiro o doce perfume de Bárbara.

Bárbara é bastante misteriosa, não gosta de falar muito. Principalmente sobre ela, não sei quase nada sobre a vida dela. Faz duas semanas que eu saio com Bárbara, ou melhor, que eu vou a casa dela. E conversar é a única coisa que não fazemos. Não sei desde quando ela se interessou por mim, mas isso pouco me importa: sempre tive uma “queda” por Bárbara.

– Ah! Dor! Como é bom sentir dor nos músculos! – grita alguém no fundo da academia, me fazendo esquecer Bárbara.

“Isso é coisa que se diga quando se está rodeado de homens?” Não era primeira vez que escutava aquilo, embora da primeira vez tenha sido mais um sussurro do que um grito. E da outra vez não tinha músculos no meio.

– Eu quero sentir dor!

“Que babaca! O que ele pretende com isso? Instigar os outros homens da academia?”

– Me faça sentir dor!

Dirijo-me ao banheiro e passo em frente ao masoquista. Olho para o rosto dele, e ela é familiar. Mas tem alguma coisa estranha, acho que não o vi pessoalmente. Devo tê-lo visto em uma foto. “Mas aonde?” Começo a ficar preocupado, sinto que devo ficar preocupado. É como um instinto de sobrevivência.

– Ah! Dor! Só eu mesmo pra agüentar duas horas de dor! Chega por hoje!

“Será que alguém quer saber se ele gosta de dor? Porque ele simplesmente não treina calado?”

Saio do banheiro no mesmo momento que o “grandalhão dolorido” se levanta. Passo a menos de um metro dele. Foi como se eu o tivesse ameaçado. Ele faz uma expressão de raiva.

– O que é que ta olhando, mocinha? É algum veado que gosta de músculos?

Não sou covarde, mas têm horas que o melhor a fazer é ficar calado. Qualquer ser com a mínima inteligência faria isso. Finjo que não foi comigo e me dirijo ao Roberto, o porteiro. Ainda sinto o olhar do grandalhão na minha nuca.

– Quem é a figura? – pergunto ao Roberto.

– É o namorado da Bárbara.

Aquela resposta foi como um murro na minha barriga. Lembrei onde tinha visto a foto: no criado-mudo ao lado da cama da Bárbara. Minha cabeça tava girando. “A Bárbara tem namorado?” penso, “ela namora esse troglodita?”. Provavelmente ele não sabe de nada, meu pescoço ainda ta inteiro.

– A Bárbara, minha vizinha? – pergunto afinal.

– É, ela. Sabe o que dizem por aí?

– Não, o que dizem? – pergunto temendo a resposta.

– Dizem que você anda visitando ela.

– É. To fazendo umas visitinhas.

Saio dali o mais rápido possível. Antes que o brutamonte me faça sentir dor. Se ele gosta de sentir, imagino que causar seja com ele mesmo. Seria ruim se ele fizesse algo comigo. Pior que isso vai ser parar de fazer visitas a Bárbara.