Apenas uma formiga.

27/01/2009

Por Lucas

Em minha perna, vejo uma pequena formiga tentando subir. É clara a dificudade que ela tem em praticar esse ato.

A dificudade é bem maior quando se é pequenininho. Não apenas para essa formiga, ou um inseto. Para todos, para aqueles que desistem de seus sonhos. Que aceitam a vida que levam, mesmo sendo quase impossível viver ela. Para todos os outros que desistem de algum objetivo por acreditarem que não irão  alcançar nunca. Para quem, antes mesmo do fim da guerra, entrega a batalha e se mata.

Ah, mas era apenas uma formiga. Com o homem  é diferente, ele pensa, ele raciocina. Ele não iria fazer algo sem objetivo, assim como era a subida da formiga.

As formigas são inúteis. Não pensam e, nem mesmo, teriam um motivo para está subindo na minha perna. Elas não são significantes.Elas não desenvolvem novas vacinas, não criam naves espaciais, não exploram o espaço, não criam armas, não fazem guerras, não arriscam a vida do Planeta. São simples formigas.

Mas será que que a evolução é, sempre, boa? O homem evoluiu, não foi mesmo? As formigas bem mais espertas, não destroem, arriscam suas vidas com objetivos bem mais plausíveis.

São apenas formigas, eu matei ela (não tenho certeza disso). Não tem valor, tem? Não pensei duas vezes em acertar a mão nela e derrubar a mesma de minha perna. Quem pensa duas vezes antes de matar uma formiga? Não vão ao céu, muito menos ao inferno. O homem pensa, raciocina. Encontrou o céu e o inferno. Já as formigas, não.

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A Corda

09/01/2009

Por Felipe

O primeiro tempo do jogo acaba. Corro pra cozinha. Pego mais duas cervejas. Volto pra sala e me jogo no sofá.

– Danilo! – alguém me chama, do lado de fora da minha casa.

Levanto-me. Já tenho idéia de quem seja.

– Sou eu, o Rafael.

Era exatamente quem eu suspeitava. Lembro-me que Rafael está me devendo um dinheiro, mas não sei quanto. Tinha emprestado mais de duzentos reais, só lembro disso. Fazia um bom tempo.

– Oi, Rafael. Entre.

Quando ele chega mais perto, noto que o seu pescoço está todo marcado. São marcas de corda, como se alguém (ou ele mesmo) tivesse tentado o enforcar. Foi a primeira vez que vi tal coisa.

– O que te aconteceu? – pergunto.

– O que? Ah, sim. As marcas.

– Isso mesmo. Não é o que estou pensando, certo?

– E eu sei lá o que você está pensando Danilo! Olha só, vim aqui devolver aquele dinheiro. Pegue.

Ele me entrega algumas notas de cinqüenta. Ponho na carteira sem contá-las.

– E então, vai me contar o que houve com o seu pescoço?

– Tudo bem, mas não comente nada com ninguém, certo?

– Certo.

– A Andréa tentou me enforcar.

Penso se não é uma brincadeira dele. Mas fazer aquilo consigo mesmo não é do feitio de Rafael. Andréa é uma mulher muito grande. Deve pesar uns cem quilos. E Rafael é um homem pequeno. Ela podia ter feito isso com facilidade.

– Nossa! Por que ela fez isso contigo?

– Cheguei bêbado em casa anteontem. Sabe como é, eu fico um pouco irritado quando “tomo umas”, meu patrão tinha gritado comigo. Disse-a que ela andava muito folgada pro “meu gosto”. Chamei-a de umas coisas. E quando eu vi, ela meu deu um soco no rosto. Cai no chão e ameacei-a de morte. Levantei-me e dei uma tapa no rosto dela.

– Nossa. E ela?

– Ficou toda vermelha. Foi na cozinha. Continuei praguejando. Ela voltou com uma corda e começou a me enforcar. Me pegou desprevenido. Tentei me soltar, mas não dava: a mulher é muito forte!

– E então ela te soltou? Certo?

– Quem dera ela fosse mais fácil. Tive que pedir perdão, disse que a amava. Que não sabia o que tava fazendo. Só não chorei.

– Nossa. Que noite, hein?

– É. Tenho que ir. Não quero mais que ela me bata. Até outro dia, Danilo.

– Até Rafael.

Ele vai embora. Sai apressado, nervoso. “Mas que homem mole” penso, “no dia em que minha mulher fizer isso comigo, ponho ela pra fora de casa. Tinha que ser com o Rafael. Sempre o “franguinho” de sempre. Aposto que chorou ontem. Nenhuma mulher bateu em mim! As que tentaram se arrependeram. Dei-lhes uma tapa de um lado do rosto, e outra no lado oposto para a cabeça não ficar torta! Se um dia Júlia me desobedecer , eu dou-lhe uns bons tapas!”

Quando a partida recomeça, Júlia, minha esposa, chega em casa. Carrega uma sacola plástica. Ela vai direto para a cozinha. “Provavelmente vai fazer a janta” penso, “tenho que ir dizer o que quero”. Noto que minhas cervejas acabaram.

– Júlia, me traga mais uma cerveja – falo com autoridade –. O que você comprou?

– Uma corda – ela responde.